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domingo, 31 de janeiro de 2010

A CRÍTICA DO CORDEL


Antônio Barreto, autor do polêmico cordel “Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso", volta novamente à cena com a produção “'Big Brother Brasil, um programa imbecil'. O reality show global e seu apresentador Pedro Bial, a quem chama de “mercador de ilusão”, são alvos de duras críticas , enfatizando-se o conteúdo fútil e pouco educativo do programa e o caráter alienante da emissora que teria o objetivo de “ ‘ emburrecer’, deixando o povo demente”.

O professor, cordelista e poeta, que já teve seu trabalho publicado em antologias e livros individuais como Flores de Umburana em 2006, é o autor também de diversos folhetos de cordéis. Amante da cultura popular, esse baiano natural de Santa Bárbara , região oeste do estado que reside em Salvador recria em seus versos de cordel, temáticas diversas e atuais como educação, problemas sociais , futebol, entre outros.

Expoente da literatura popular o cordel foi trazido pelos portugueses ao Brasil na época da colonização, estando presente até os dias atuais, em diversas manifestações, sobretudo no Nordeste do país. Inicialmente de tradição oral, o cordel é escrito e publicado através de folhetos em versos rimados e cadenciados, disposto em estrofes de tamanhos diversos, onde são retratados assuntos do cotidiano e aspectos sociais e políticos em tom crítico ou irônico. Confiram o inteligente trabalho de Antonio Barreto. São vinte e cinco estrofes com sete versos cada uma.


Brother Brasil
Um programa Imbecil

Antonio Barreto

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal...

FIM
FONTES: PORTAL UOL
BLOG BARRETO CORDEL


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

LIBERTAI-NOS , OH POETAS!

Somente os loucos são capazes de transcenderem a realidade doentia para os outros, os normais, deixemos as verbalizações racionais em seus infinitos porquês.
Por Andreia de Oliveira

Entre todas as linguagens artísticas, a poesia, sem sombra de dúvidas, representaria uma perfeita oposição aos ditames do paradigma racional que ainda infesta a humanidade com suas visões mecânicas e limitadas da realidade. Racionalizar, codificar, rotular , explicar tudo com o extremo rigor das normas e convenções conduziram os homens a incríveis progressos tecnológicos, não obstante produzem a cada dia uma legião consideráveis de seres neuróticos , apáticos e alienados , incapazes de expressarem uma ideia, uma palavra ou um gesto que seja do imenso universo que povoa a alma humana.

Conceber o todo como partes separadas e distintas aos moldes do pensamento cartesiano produz a legião dos especialistas das ciências que em seu saber sistematizado e dogmático nos dizem muito sobre os computadores , as doenças , as crises financeiras e os conflitos sociais. O homem animal social, político, econômico em suas diversas concepções psicológicas, antropológicas, biológicas.

Mas e o homem, o que seria mesmo? Não seria uma peça indissolúvel e integrada à imensa cadeia de vida do universo, tal como preconiza Fritjof Capra , em sua teoria do paradigma ecológico holístico , ao determinar a indissolubidade de todas as partes como pressuposto máximo para o conhecimento do funcionamento do organismo?

Para os poetas que exploram todas as possibilidades de transcendência da realidade cotidiano, através da sublimação do ego e unem sua voz a torrente de desejos, anseios e imaginários da humanidade, certamente, não. Não sem razão, a poesia, como elemento de subversão, questionamento e inovação frustram as expectativas de todos que existem em vê-la unicamente como um devaneios de mentes errantes.

O Manifesto Utópico – Ecológico em Defesa da Poesia e do Delírio , do poeta Roberto Piva *, exprime com todo vigor esse cunho libertário em meio as inúmeras referências ao novo paradigma dos tempos, rompendo com toda as estruturas massificantes da sociedade.

“Invocação

Ao Grande deus Dagon de olhos de fogo, ao deus da vegetação Dionisos, ao deus Puer que hipnotiza o Universo com seu ânus de diamante, ao deus Escorpião atravessando a cabeça do Anjo, ao deus Luper que desafiou as galáxias roedoras, a Baal deus da pedra negra, a Xangô deus-caralho fecundador da Tempestade.

Eu defendo o direito de todo ser Humano ao Pão & à Poesia. Estamos sendo destruídos em nosso núcleo biológico, nosso espaço vital & dos animais está reduzido a proporções ínfimas quero dizer que o torniquete da civilização está provocando dor no corpo & baba histérica o delírio foi afastado da Teoria do Conhecimento & nossas escolas estão atrasadas pelo menos cem anos em relação às últimas descobertas científicas no campo da física, biologia, astronomia, linguagem, pesquisa espacial, religião, ecologia, poesia-cósmica, etc., provocando abandono das escolas no vício de linguagem & perda de tempo em currículos de adestramento, onde nunca ninguém vai estudar Einstein, Gerard de Nerval, Nietzsche, Gilberto Freyre, J. Rostand, Fourier, W. Heinsenberg, Paul Goodman, Virgílio, Murilo Mendes, Max Born, Sousandrade, Hynek, G. Benn, Barthes, Robert Sheckley, Rimbaud, Raymond Roussel, Leopardi, Trakl, Rajneesh, Catulo, Crevel, São Francisco, Vico, Darwin, Blake, Blavatsky, Krucënych, Joyce, Reverdy, Villon, Novalis, Marinetti, Heidegger & Jacob Boehme & por essa razão a escola se coagulou em Galinheiro onde se choca a histeria, o torcicolo & repressão sexual, não existindo mais saída a não ser fechá-la & transformá-la em Cinema onde crianças & adolescentes sigam de novo as pegadas da Fantasia com muita bolinação no escuro”.

* Roberto Piva, comumente classificado como o “poeta maldito” foi publicado inicialmente na Antologia dos Novíssimos em 1961. Nos anos 70 , participou da Antologia 26 poetas hoje que reunia nome da chamada literatura marginal organizado por Heloísa Buarque de Holanda. Publicando individualmente os seguintes livros: Paranóia, 1963; Piazzas, 1964, Abra os olhos e diga ah!, 1975, Coxas, 1979, 20 Poemas com Brócoli, 1981, Antologia Poética, 1985, Ciclones, 1997, Um Estrangeiro na Legião: obras reunidas, volume 1, 2005, Mala na Mão & Asas Pretas: obras reunidas, volume 2, 2006, Estranhos Sinais de Saturno: obras reunidas, volume 3, 2008. Sua poesia marcada de influências surreais e referencias a geração beat , destaca-se pelo seu cunho libertário e contraventor em meio a abordagens de temáticas homoeróticas. Recentemente em seus trabalhos é freqüente a alusões ao misticismo e ao xamanismo.




quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A REVOLTA HEDONISTA

Os ecos entusiastas do paraibano IkaRo MaxX

Um estilo livre, contagiante e original, desapegado de quaisquer normas ou convenções estão presentes nos versos do jovem paraibano, IkaRo MaxX. Poeta performático , Ikaro encena com maestria em suas declamações públicas todo o furor da verve maldita , existentes na essência de sua obra. Em seu universo poético que mescla a rebeldia inteligente proclamadas em tons de lirismo encontram-se abordagens hedonistas, exaltando a liberdade criativa do poeta.

Apesar da pouca idade, 24 anos, esse poeta paraibano já participou de algumas Antologias Poéticas, como Poemas Dispersos da Coleção Literatura Clandestina , em 2006, Poemas de Mil Compassos da Coleção Literatura Clandestina, da Editora Clube de Autores , em 2009. Publicou ,ainda, Manifesto – Lançamento do Niilismo Positivista , em 2002, Canções Anarquistas para Crianças Fora do Século, Um Cristo Cuspido no Espelho do Século , em 2007 e Lê Fantôme de Maldoror, em 2008. Escreve também no blog Dionísio em Pedaços, além de contribuir frequentemente , com participações em outros portais , com textos e poemas a exemplo desse trabalho, Procriação, publicado no Duelos Literários, em 02 de dezembro de 2009.

PROCRIAÇÃO

Por Ikaro Maxx *

a fagulha das penumbras queimam na última hora

deixando escorrer o escárnio daquelas senhoras santas

que sonharam tanto um dia serem

como a virgem Maria

pregada numa imaculada vitrine

enquanto suas saias soltam centelhas

de filhos santos abortados pelos homens

& na margem final das contas

onde os números acumulam cenas

os olhos vermelhos dos casais desconsolados

miram no filho a única iguaria leviana em todo a Eternidade

atrás das paredes batem asas os pensamentos

os talhares dispostos para mais uma ceia

o batom entalhado na face usada de uma mulher de bem

e as velas queimando um último décimo de decência

inalada juntamente aos gases horríveis

da mãe que morre em sua poltrona preferida...

* IkaRo MaxX , é um dos participantes do Livro “ Poemas de Mil Compassos” , Coleção Literatura Clandestina da Editora Clube de Autores.

FONTES: Blog Café em Versos e Prosa

Site do Governo do Estado da Paraíba

Revista Muito – Jornal A Tarde

FOTO: Blog Literatura Clandestina

TEXTO: Andréia M. de Oliveira