Mostrando postagens com marcador Resenha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resenha. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de abril de 2010

OS ASTRONAUTAS DE YAVEH

Este livro de Juan José Benítez ,escrito com base em fontes polêmicas tais como Evangelhos Apócrifos(convenientemente retirados da Bíblia Cristã) e estudos ufológicos , faz um intrigante elo entre a história de Jesus e a colonização extraterrestres na terra.

Por Andréia de Oliveira

Um pouco antes de Dan Brown impressionar a todos com a revelação dos segredos que se escondiam sob o véu das trevas dogmáticas, o espanhol Juan José Beinitez já se ocupava de temas intrigantes relacionados às verdades ocultas. Autor da série de Best Sellers de bastante popular nos anos oitenta, “Operação Cavalo de Tróia”e do polêmico” A Rebelião de Lúcifer” , “ Os Astronautas de Yaveh” , entre outros, o escritor confere a seus livros , um misto de relatos investigativos com tons jornalísticos e criações ficcionistas, trazendo a tona fatos e informações surpreendentes, repudiadas e odiadas para os crédulos seguidores dos textos sagrados. Tamanha audácia de Benitez faz com seja alvo de desconfiança e perseguições , sendo acusado inclusive de plágio em “A Rebelião de Lúcifer” , cujo conteúdo assemelha-se ao Livro de Urantia , (a quinta revelação) publicado em meados do século XX cujo tema também voga sobre as origens do universo, a revolta do anjo de luz e sua conseqüente expulsão do paraíso.

Polêmicas ou acusações a parte, mas o fato é que Benitez é um escritor genial , desses que misturam realidade com fantasia para que a informação possa ser didática e homeopaticamente assimilada pelo leitor, ainda arraigado aos ditames do senso comum. Ficção realistas ou falsos relatos investigativos diriam os opositores de Benitez . Mas o fato é que “Os Astronautas de Yaveh” , diferentemente de outros livros do autor, foi escrito com base em fontes reais, embora sua veracidade possa ser de imediato questionada pelas mentes ainda presas aos paradigmas convencionais que de pronto iriam contestar os escritos conhecidos como Evangelhos Apócrifos (aqueles convenientemente retirados da Bíblia Cristã) ou estudos ufológicos de investigação sobre a aparição e existente de OVNI’s.

Assim, o ponto central dessa obra de J.J. Benítez gira em torno da defesa de uma possível origem extraterrestre de Jesus Cristo, partindo-se do pressuposto da intervenção de seres de outros planetas em várias passagens do antigo e novo testamento, em uma possível missão de implantação e fortalecimento do monoteísmo e de evolução da raça humana. Para tanto compara fenômenos tidos como ufológicos, a exemplo do registro da formação de densa camada de nuvens antes da aparição dos considerados objetos voadores não identificados, com as visões de aparição de Deus e dos anjos descritas na bíblia, onde a divindade fala aos homens envolta em nevoas ou arbustos.Benitez afirma assim que os anjos do antigo testamento eram ,na verdade, seres extraterrestres em missão especial no planeta, que foram denominados pelo senso comum da época de emissários de Deus (ou no próprio em alguns casos, a exemplo das aparições de Deus a Moises ) , na ausência de qualquer outra associação possível.

Dessa maneira por meio de uma análise nada usual de outros trechos das escrituras sagradas e dos textos apócrifos surgem outros fortes indícios da interferência extraterrena. Nesse particular, cita-se a fase de lactância e infância de Maria (a mãe de Jesus) , criada em um templo desde a mais tenra idade, recebendo alimentação diretamente da mão de um anjo, conforme enunciam os escritos apócrifos. Para Benitez tal preocupação dos possíveis extraterrenos em alimentar diretamente a futura genitora do messias, refletia cuidados extremos com a saúde e bem estar de Maria, dado os alarmantes índices de mortalidade infantil na Palestina da época.

De igual maneira, torna-se elucidada a fecundação da virgem Maria , que concebeu pura e imaculada conforme relata os textos sagrados. Segundo Benitez tudo não passaria de um possível experimento nos moldes da inseminação artificial, desenvolvida com o objetivo de proporcionar o nascimento de um ser da magnitude do Jesus de Nazaré. Tal idéia corrobora com a história descrita nos textos apócrifos quando a menina Maria, que estaria sob a guarda do viúvo José – mais velho, na faixa de seus quarenta anos, pai de seis filhos - engravida por obra do que eles denominavam de Espírito Santo, sem qualquer contato sexual.

Estes e outros casos presentes nas escrituras sagradas aparentemente sem explicação plausível ou racional presentes nas escrituras sagradas ganham sentido na tese desenvolvida por Benitez , desenvolvida à luz dos estudos ufológicos, a partir da idéia da intervenção de seres extraterrenos proveniente de civilizações na colonização da terra. Tais afirmações tomam reforço a partir da teoria da física quântica ( um pouco desconhecida e ainda de difícil entendimento, tal o predomínio do pensamento cartesiano ) em seus conceitos de universos paralelos que permitiram a qualquer visitante do espaço materializa-se como seres divinos e mágicos aos olhos dos habitantes da Palestina da era pré-cristã.

Por essas razões “ Os Astronautas de Yaveh” é um livro a ser lido sem preconceitos ou pré-julgamentos inerentes ao sendo comum que desenvolvemos ao longo da vida, fruto de nossa interação com o meio, com os estudos , com a religião ou com a família. O leitor atento, buscador da verdade, amante da literatura científica seja ela ficcionista ou não e todo cidadão pensante desse início de século que há muito tempo duvida do convencional encontrará nessas páginas , valorosas fontes de reflexão e quem sabe respostas a angustiantes questões que gira em torno da história de Jesus Cristo e de importantes personagens bíblicos.





terça-feira, 23 de março de 2010

POEMAS DISPERSOS

Por Andréia de Oliveira

Os versos simples e direto, carregados da linguagem metafórica obtidas das visões cotidianas , presentes nos primeiros versos da Antologia Poética “Poemas Dispersos”, da Coleção Literatura Clandestina, organizada por Elenilson Nascimento, sinalizam com perfeição a proposta de ruptura com os ditames do convencionalismo erudito, assim como é elucidado na apresentação da obra. E a poesia comumente associada aos grandes nomes imortalizados nos livros didáticos de literatura ganha ares e formas da vida real nas temáticas cuja abordagem alcança as dores, conflitos e problemáticas dos dias presentes.

Impossível o leitor não se identificar com o amor vício, aquele que surge nas necessidades da vida, capaz de silenciar as angústias e proporcionar conforto, tal qual é gritado em “Palavras do Amor” de autoria de Adams Almeida Lopes . E esse tema recorrente e frequente na história da poesia, ganha contornos de um erotismo sutil e lírico que por vez pode ultrapassar os limites do corpóreo aliando-se a uma dimensão espiritual do amor a partir dos versos de Luciane Goldstein , em “La Femme”.

Dos cantos de amor às temáticas existenciais exaltadas nos questionamentos acerca das veracidades da personalidade humana em meio ao dissimulado jogo das aparências humanas. Tal constatação surge no Poema “Fingindo” de Elenilson Nascimento, onde o “homem, vinho azedo numa mesa eucarística” apodrece sua essência e seu verdadeiro espectro de vida.

E quem sabe por isso mesmo transforma-se no poeta maldito com toda “ A Consciência do Escarro”, onde Elenilson Nascimento exibe um rosto sem forma, um homem sem nome , perdido em abstrações e alucinações mórbidas. Assim emerge-se um retrato perfeito do universo do poeta Augusto dos Anjos, em meio a construções narrativas que aludem a necrofilia, vida e morte surgem como produto de reações químicas e orgânicas, sinalizando reflexões quanto a própria essência humana.

As angústias, indagações como tônica das incertezas dos tempos presentes são abordados ainda por outros poetas como Tássio Teles, em “Encontro Marcado”, onde contraditoriamente o fim sinaliza o eixo convergente das potentes manifestações de vida. Já no poema “Saga do nordestino”, de Varley Farias Rodrigues, o épico mistura-se às experiências de vida, dando o tom dos lamentos e sofrimentos.

Em meio a essas e outras sublimações da realidade corrente, a poesia sobrevive e flui livremente exaltando-se a dor como um canal de expressão do poeta em meio à interposição de figuras metafóricas. Luciano Dias Rosa seguindo a linha dos micros poemas, utiliza em “ Meu poço a concisão e precisão das palavras para retrata a dor como um ponto de transmutação do ser.

Entre a diversidade de estilos e temas, os versos dos poetas dispersos, por vezes, assumem a forma da prosa, em excelentes abordagens líricas onde sentimentos e a emoções revelam-se a cada linha. Na prosa poética “Talvez Dois”, Pedro Gutierres apresenta a ideia do amor que ao mesmo tempo em que oprime , pode tornar-se tão essencial à vida quanto à própria respiração.

E dessa maneira, quase que como um bafo sufocante desenha-se a verve poética dos demais poemas desse livro, um apanhado de fúria e beleza que sobrevive mesmo no território das necessidades plásticas da atualidade. Quase um século após o movimento modernista balançar as estruturas da literatura brasileira, inaugurando uma nova forma de se fazer arte, eis a POESIA emerge de maneira independente e inteligente nesse livro.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O VENDEDOR DE PICOLÉ QUE AMAVA CAPITU

Quando as aflições modernas transformam-se na linguagem literária.


* Por Andréia de Oliveira


As angústias e amarguras retratadas em um quadro de crise social em todos os seus aspectos ,elementos frequentemente abordados nos textos do escritor baiano, Elenilson Nascimento, estão presentes nesse conto, O vendedor de Picolé que Amava Capitu, integrante do livro Memórias de um Herege Compulsivo. Nessa história, entretanto, como diferencial utiliza-se a crise na instituição educacional como pano de fundo para que se discuta questões que se encerram nos campos das crises existenciais do homem moderno, imenso em seus dramas de solidão, individualismo e desmotivações.

Um jovem professor de letras amarga as frustrações e decepções com a carreira, em meio ao descaso educacional do país, questionando-se profundamente quanto a sua própria relação com o mundo. Em seu cotidiano de morador da periferia da cidade convive diariamente com a realidade dos esquecidos, enquanto busca subterfúgios para amenizar o vazio e a angústia típicas de seu contato conflituoso com a realidade.

Esse personagem, assim, encarna o estereótipo dos milhares de jovens que acreditaram no mito da redenção através do ensino superior no país e encontram-se agora inoperantes face às impossibilidades de atuarem como agentes transformadores, carecendo ainda de quaisquer mecanismos compensatórios, sejam eles no patamar financeiro ou no campo do reconhecimento social. Não sem razão, apresenta uma personalidade solitária, angustiada, triste, por vezes apática que se revela na incapacidade de comunicação efetiva com a sociedade em que vive.

Surge então, a figura do vendedor de picolé que amava Capitu, finalizando a saga do excluído que encontra sua razão de ser na literatura e enfrenta inúmeras dificuldades em se fazer ouvido e compreendido. O ato de escrever muito além da revelação de uma vocação nata, traduz a sua própria sobrevivência no mundo, com qual consegue, por fim, estabelecer um dialogo efetivo, transcrevendo suas ideias e impressões.

Uma recriação da lenda da vitória dos rejeitados que ganha forma personalizada ante a abordagem lírica e metafórica, contextualizadas com os problemas atuais, em uma história que desperta reflexões quanto à decadência cultural da atualidade, enaltecedora de egos e esmagadora de talentos. Em outro desdobramento para o leitor mais atento, podem surgir ,ainda, questionamentos quanto à capacidade da literatura na condição de sonho individual de uns poucos, ser capaz de produz alguma espécie de ressonância dentro do quadro alienante da contemporaneidade.

De qualquer forma o conto é especialmente ilustrativo a respeito do caráter imediatista e cruel dos tempos atuais quando a condição da existência humana é usualmente atribuída ao projeto que representa dentro de uma escala de valores , construída pela sociedade. A literatura surge assim como um bálsamo, ou quem sabe um possível antídoto à superficialidade reinante, sinalizando possíveis caminhos e possibilidades de sobrevivência de visões diferenciadas de mundo que não se encerram na conversões do cotidiano.

FOTOS: 1 - Site Penacova
2- Livro Memórias de Um Herege Compulsivo

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

AVATAR


Apresentando um enredo tido como clichê, o épico de James Cameron, a 2ª maior bilheteria da história do cinema, desperta reflexões e transcende os limites do convencional.

Por Andréia de Oliveira

Sucesso de público, o filme Avatar do diretor James Cameron que já ostenta o título de segunda bilheteria da história do cinema, é frequentemente reportado pelos seus efeitos especiais, inovações em 3D e recursos de computação gráfica. Motivo pelo qual atrairia um legião considerável de telespectadores aos cinemas , mesmo a despeito de uma trama linear e previsível onde o bem e o mal travam aquela batalha histórica, com direito a final feliz e tudo.

O que muitos críticos, entretanto, não aceitam é que são justamente historinhas assim, meio água com açúcar que atraem multidões aos cinemas na tentativa de sublimar as angústias do dia a dia. E são justamente os aspectos convencionais de um enredo centrado no conflito entre a ambição de uma civilização tecnológica e a espiritualidade de um povo primitivo, desenrolado em meio à história de um amor impossível, o elo capaz de suscitar a saga dos opressores versus oprimidos tão recorrentes dentro do ideário popular.

Soma-se a isso a um cenário futurista, ambientando no ano de 2154 , o inóspito e incrível Mundo de Pandora, uma lua habitada por humanóides azuis, os Navis, e selvagens animais, detentor de uma exuberante flora e de valorosos recursos naturais cobiçados pelos humanos. Os Avatares, resultados da experiência genética de cruzamento dos seres humanos com os nativos de Pandora, são comandados por humanos nas atividades de exploração do planeta, remontando-se, assim, a possibilidade de transmigração de corpos e a manipulação e criação da vida de forma artificial.

Esses e outros elementos de ficção científica são apresentados no transcorrer do filme por meio da representação de incríveis imagens de beleza única, expressão da simplesmente e sabedoria de um povo que vive em total comunhão com o mundo a que pertence. Essa mensagem ecológica surge, talvez, indicando um possível caminho ser seguido pela humanidade, representante, entretanto, da retomada de um modelo já vivido em distantes eras.

São inúmeras as semelhanças da sociedade do filme com as civilizações primitivas, anteriores a instituição do patriarcalismo, a exemplo dos celtas e outras relacionadas à tradição primordial e aos cultos pagãos. Esses povos cultuavam a Grande Deusa, como expressão máxima da divindade, em seu entendimento acerca da extrema ligação e interdependência existente entre todos os seres vivos.

É bastante representativa a relação dos habitantes de Pandora com uma árvore, considerada como a grande fonte criadora de vida, em sua simbologia máxima do culto à mãe Terra. Da mesma forma é digno de registro o respeito a todas as formas de vidas, ilustradas por invocações e orações que esse primitivo povo realiza quando se faz necessário caçar ou matar um animal.

Além desse referencial místico, James Cameron explora também um tema recorrente de estudos esotéricos e ocultos, relacionado à influência de invasões alienígenas no processo de colonização de civilizações mais primitivas. J.J. Benitez e Zecharia Sitchin abordam essas temáticas em livros que apontam para uma possível presença de seres extraterrestres em períodos remotos da história da Terra, apresentando assim, a raça humana como resultado de experimentos alienígenas, em sua provável explicação para o mito dos anjos caídos.

Em Avatar essa história é contado do lado inverso, tomando como referência os humanos como empreiteiros na criação de novas raças, colocados, entretanto, de maneira geral, como grande vilões, mas que permaneceram no planeta após uma seleção de propósitos e objetivos. Os Avatares, misto de humanos e alienígenas ilustram ainda um cenário de miscigenação alienígena que se alinham em termos gerais ao tema abordado por Benitez no livro “Os Astronautas de Yaveh” .

O próprio nome Avatar, interpretado usualmente como a designação de uma identidade virtual utilizada em larga escala nos “games” da atualidade pode ser tomada também como uma tradução literal do termo que vem do sâncristo “avatãra” e designa uma divindade proviniete do paraíso que desce a terra, assumindo corpos humanos. Os avatares do épico de Cameron são criaturas geradas em laboratório, animadas pela mente (alma) humana e assim como os “avatãras” da tradução original interagem em um mundo que não lhes pertence de fato.

Considero esses elementos referenciais místicos e esotéricos utilizados de maneira subliminar, um dos principais diferenciais do filme Avatar, uma vez que se reporta a um universo ainda pouco conhecido, dentro das concepções dos ditames do senso comum. Contudo, assim como ocorreu com a trilogia Matrix, tais aspectos dificilmente são notados aos olhos menos atentos, habituados a contemplarem apenas os aspectos visuais ou culturais de um filme.

Assim para muitos o filme Avatar é um filme bonitinho e divertido que promove valores ecológicos em meio à exuberância de um cenário magnífico, retratado com perfeição graças às inovações tecnológicas da era digital. Mesmo sob esse olhar ,entretanto, o épico de James Cameron é digno de se visto e revisto.






FOTO DIVULGAÇÃO: GOOGLE
VIDEO: YOU TUBE

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

MEMORIAS DO HEREGE- PART 1

“E nessa perspectiva, vilões surgem na deterioração dos valores, como representantes natos da amoralidade dessa era...”Por Andréia de Oliveira
“Finalmente mais uma guerra cheia de mentiras acabou...”, são essas as palavras iniciais da apresentação desse livro de capa impactante, cujo nome pode soar como uma blasfêmia aos ouvidos dos mais puritanos. Não sem razão, Elenilson Nascimento, seu autor, expõe inicialmente um destemido e consciente discurso sobre os principais problemas da atualidade, enfatizando as dificuldades de se escrever em um país onde a educação cada vez mais entregue a interesses políticos reproduz crescentemente legiões e mais legiões de seguidores de uma cultura pasteurizada e superficial. Assim, nessa sua proposta de elucidação das verdades não ditas, o escritor remonta-se ao axioma nietzscheziano do aniquilamento das crenças divinas para reportar-se a inoperância de Deus face às barbaridades do mundo.
Dessa maneira, a despeito do título, que de imediato pode está associado a uma coletânea de obscenidade emitidas por um ateu convicto, o autor baiano expõe, ainda na Apresentação da obra, um intrigante diálogo com Deus, a quem lhe atribuiu, a missão de desvelar as faces ocultas da raça humana, por meio do que denomina ser a escrita de “verve maldita”.
Assim como a belíssima ilustração da capa do livro, Elenilson mantém-se como uma espécie de anjo caído, de olhos vendados para os Jardins do Éden, recriando a beleza perdida por meio do lirismo de suas palavras, distancia-se do mito da perfeição divina, aproximando-se, com isso, cada vez mais do universo dos homens. E são muitas as alusões aos atos de um Deus “impiedoso” e “cruel”, tão qual é retratado nas construções do Antigo Testamento, no cerne da constatação de que os homens foram jogados no mundo entregues a sua própria sorte e estão suscetíveis a toda espécie de vilania e discriminação.
MATRIX – Talvez seja um pouco lunático mais extremante plausível estabelecer um elo de ligação entre esse jovem escritor com o herói cibernético Neo, do filme “Matrix”, visualizando-o como uma aberração ou vírus que assola o programa mestre que gerencia nossa realidade e nos conduz aos ditames do senso comum. Como um recém liberto das amarras da caverna nossa de interesses e alienação cotidiano, que tem acesso instantâneo ao universo das verdades ocultas e ainda um pouco tonto com tanta informação, Elenilson passa, dessa forma, sua mensagem de forma bombástica e incendiária.
Muito além do fiel retrato da realidade doentia que cerca os domínios de nossas visões de mundo, propõe-se a libertação de todos os prisioneiros que se encontram acorrentados à escuridão das cavernas, dos templos, dos edifícios, dos lares e da própria sorte. E esse subliminar conclame de emancipação da mente humana ocorre de maneira sutil, irônica e inteligente através de uma linguagem metafórica, subjetiva, através do qual aborda uma temática que pode beirar o absurdo realista para os desatentos, ou simplesmente o realismo sensato para uns poucos que corroboram com a interpretação caótica do mundo.
Interpõe-se, em sua narrativa, alusões aos problemas sociais, a crise educacional, a pedofilia, a corrupção, as traições, as infidelidades amorosas e de outros elementos oculto sob a moral de conveniência dos tempos presentes. E nessa perspectiva, vilões surgem na deterioração dos valores, como representantes natos da amoralidade dessa era, como no caso do pedófilo do conto “O aliciador de Melissas”, representante nato da amoralidade dessa era, enquanto os mocinhos umedecem as nossas vistas secas, sinalizando com esperança a possibilidade de vitória dos excluídos, a exemplo do personagem do conto “O vendedor de picolé que amava Capitu”.Ressoam-se, dessa maneira, os ecos da voz desse “herege compulsivo”, a quem não cabe a denominação do sentido literal da palavra, mas com toda certeza uma abstração alegórica inserida na percepção dos que descortinaram os véus da realidade e permanece assim junto a ela como um observador atento. E, por essas razões, as palavras de Elenilson Nascimento expressam-se aos leitores, como uma espécie de monólogo interativo, onde personagens angustiados e esquizofrênicos ganham vida, subsistindo em universos isolados, não como uma estratégia de fuga, mas sim como um recurso de sobrevivência em mundo caótico por natureza.
Por mais contraditório que possa parecer essa mesma realidade padronizada, por mero decreto, cria e abriga toda uma diversidade de anomalias e deserções que nada mais reflete do que o espelho imperfeito de uma sociedade doentia e disforme. Dentro dessa visão, surge a figura do Sir. João Grandão do conto introdutório do livro, “Todo mundo amplia a paranóia que cria”, um comentarista famoso de televisão que profere seu discurso sensacionalista carregado de colocações antiéticas bem aos moldes da típica programação midiática líder de audiência.
Esse personagem, em especial, que vive em um universo de excentricidades, egocentrismos e pretensões de toda sorte, construído engenhosamente por sua personalidade metódica e neurótica para ocultar as frustrações de uma carreira artística mal sucedida, possui ainda devaneios alucinógenos, autodenominando-se como crítico de arte. Contudo, como tudo nesse homem é verdadeiramente falso e efêmero, Sir. João Grandão, ex-adepto da teoria revolucionária de Stiglitz de combate à globalização dos mercados e admirador da irreverência de Tom Zé, assisti a sua própria degradação às voltas com críticas moralistas por conta de mais uma de suas declarações bombásticas e o ressurgimento de um câncer.
Se esse homem é apenas mais uma aberração atípica desse mundo, obra do acaso ou do destino previamente traçado, não se sabe. Essa é uma reflexão que pode surgir após a leitura desse conto. Em seu estilo provocativo, carregando de abstrações metafóricas e analogias, Elenilson intervém na narrativa com algumas considerações interessantes acerca da caracterização do personagem, bastantes elucidativas. De qualquer forma, não é difícil encontrar tipos semelhantes ao Sir. João Grandão por aí, produzidos e ejetados pela paranoia do sistema social em que vivemos.
É assim, como o mundo padronizado carrega consigo o dom nato da auto contradição, eis que surge um outro personagem, desses lunáticos e enigmáticos, no conto “O homem que se espremia no traje da cor do mundo”.
Miranda, um típico homem, desses fabricado pela futilidade da pós- modernidade, depara-se com a realidade do mundo ante a imagem da cruz estigmatizada do sofrimento de Cristo. Um entre tantos outros que espera pela vinda do filho de Deus como um bálsamo para as dores do mundo, encontra-se só e desprotegido, reagindo a tamanho desamparo com o cinismo, desinteresse e inércia, ante a realidade que o rodeia. Ou seria esse mesmo homem, o Miranda, uma criatura sensível demais para pertencer ao universo das misérias cotidianas que encontrou à perfeição dos reinos dos céus, sozinho e isolado, se refugiando na música harmoniosa de um piano? Essas e outras questões podem ser despertadas, a partir da leitura dessa narrativa, onde se questiona a possibilidade de sobrevivência dos chamados idealistas na sociedade presente. Não sem propósito seria, também, a discussão sobre o possível retorno do Cristo, verdade alimentada pela crença religiosa, nesse mundo de violência, injustiça e superficialidade.
São essas temáticas conflituosas, angustiantes e polêmicas que são abordadas nos dois contos iniciais do livro que parecem surgir como uma contraparte à proliferação dos títulos de auto-ajuda em sua tentativa de criação estilizada do sonho americano da eterna felicidade. Seguindo a linha dos bons ficcionista em suas abordagens psicológicas e sociais, o autor mistura fantasia e realidade, reproduzindo através de seus personagens e histórias, retratos em preto e branco das personalidades que brotam do estado inerente do caos humano. Toda essa caracterização atemporal da condição humana, acrescida dos dramas presente na depreciação dos valores da sociedade contemporânea estão presentes em “Memórias de um Herege Compulsivo”, num livro que reúne 30 contos do escritor baiano Elenilson Nascimento, publicado pela Editora Clube de Autores em setembro de 2009. (“MEMÓRIAS DE UM HEREGE COMPULSIVO”, de Elenilson Nascimento, 303 págs, Rio de Janeiro, 2009 – Clube dos Autores)

>>> CLIQUE AQUI e adquira o livro direto com a editora. AQUI e conheça o blog do livro. E baixe AQUI também o CD “Poemas de Mil Compassos Vol. 1”, com organização de Elenilson Nascimento e vários poemas recitados e muitos bônus tracks.
*